“A extrema importância conferida á vida aqui na qual concentramos todos os nossos interesses, constituem a causa primeira das nossas misérias sociais. Só a crença numa vida futura nos melhorará. Se nos soubermos imortais, não mais consideraremos a vida aqui como o nosso fim supremo; e só nesse caso teremos a nossa vida aqui correlatada ao bem estar da vida futura, mesmo em detrimento daquela. O egoísmo terrestre, que exclui o amor do próximo, poderia ceder lugar ao egoísmo transcendental - e isso bastaria para melhorar as condições sociais, porque implica amor ao próximo; um calculo bem simples mostraria que, se as relações pessoais continuam no Além, quem mais semeia aqui; melhor messe colhe na vida futura.”

“O homem, a criatura mais complexa que conhecemos, deve ser considerado um microcosmo em que se acham concentradas todas as forças do macrocosmo. Possui necessariamente forças ocultas de que não tem conhecimento e que não pode empregar a seu talante, mas que pode fazer sair do estado de latência desde que conheça as leis que as regem. E assim, por exemplo, que os sonhos proféticos se apresentam espontaneamente, mas não podem produzir-se segundo o nosso desejo.”

“A ciência física tem o mérito de haver riscado o sobrenatural dos estudos sobre o Universo; mas ultrapassou os seus direitos querendo ao mesmo tempo negar o lado transcendente da Natureza. Seu erro refletiu-se na doutrina grosseira do materialismo, que só considera real o que pode ser verificado pelos sentidos. Mas o desenvolvimento biológico dos nossos sentidos, em todos os tempos, demonstra que a realidade não corresponde á percepção sensorial, e não temos nenhuma razão para crer que a realidade se limite ao circulo estreito do organismo humano. O transcendental foi e será sempre uma grandeza incomensurável - e não há razão para que se, esgote com as formas criadas que existem.”

Na crença ingênua dos povos o Além foi situado nas esferas superiores porque o homem considerava a terra como o centro do mundo. Copérnico pôs fim a essa concepção errônea, ensinando as dimensões e a profundidade dos Céus. Arrebatou-nos o Além, deslocou o Céu mais se colocarmos o Além neste mundo, ele permanecerá nosso - e ninguém no-lo poderá arrebatar. A linha de demarcação entre o nosso mundo e o Além não é geométrica, sim traçada pelas nossas sensações.”

“Os progressos da ciência devem insensivelmente atingir as profundidades ocultas da natureza; e a consciência humana, progredindo, se enriquecerá com as forças ocultas do Inconsciente. Dois mundos separados - o Aqui e o Além - devem, no decurso da Evolução, fundir-se num só Universo.

Observamos que a natureza e a consciência transcendentais do homem ainda permanecem separadas da sua natureza física e da sua consciência cerebral; e que um dos lados só pode manifestar-se á custa do outro - o que sucede pela alternação do nascimento e da morte. A existência oculta e suas funções paralisam-se pelo processo de materialização a que chamamos nascimento; a morte as ressuscita, mas sacrificando o corpo físico. Esse estado de coisas deverá transformar-se insensivelmente, se a evolução abranger os dois lados do nosso ser e tender a fundi-los num todo completo. Ora, é isto que já observamos. O desenvolvimento biológico do homem foi uma lenta gradação do organismo, com o surto dos sentidos e o concomitante aperfeiçoar-se da consciência. Certos aspectos de sua vida inconsciente, pelas quais o homem se une á natureza universal, fazem parte de sua consciência cerebral e por meio deles o homem cada vez mais se liga ao mundo transcendental - que desse modo se transforma, para ele; em mundo físico.

Vemos, portanto, do ponto de vista biológico, o Aqui e o Além se transformarem insensivelmente e se fundirem um no outro. Já hoje levamos vida comum com a natureza universal, embora a consciência cerebral só tenha noção de parte disso. Nossa essência oculta já está unida á natureza oculta universal, e já pertencemos, embora de modo inconsciente, ao mundo dos Espíritos. A evolução compete desenvolver o processo biológico até tornar-nos consciente dessa inconsciente união com o universo - até que o Aqui e o Além definitivamente se entrelacem um no outro.

Houve eras em que os homens, divididos em raças e separados pelos oceanos, estagnavam-se nas diversas partes do mundo. O progresso histórico trouxe a aproximação dos países e seus habitantes por meio das vias de comunicação. A humanidade do futuro levará vida comum. Tempo virá em que entraremos em relações com os habitantes dos planetas vizinhos e, finalmente, conseguiremos, pela progressão de nossa vida física e absorção desta na existência transcendental, produzir uma fusão das duas existências, de sorte que o homem do futuro viverá em comum com os habitantes do Além.”

Nota da Sociedade Metapsíquica de São Paulo (Entidade que posteriormente se fundiu à Federação Espírita de São Paulo)

Durante multo tempo os fenômenos metapsíquicos foram sistematicamente negados pela ciência positiva. Ficara assente que só existia o que fosse perceptível pelos nossos sentidos, - sentido que a fisiologia reconhece serem, além de reduzidíssimos, muito rudimentares. Ora, essa atitude ë incientifica e muito pouco filosófica. Se a ciência admite e prova que os sentidos foram aparecendo gradualmente, e se desenvolvendo no curso da evolução, tem que admitir que não ha razão nenhuma para que permaneçam nos cinco que temos hoje. Se já chegaram a cinco, havendo partido inicialmente do sentido táctil das amebas, por que não chegarão a dez ou cinqüenta?

Muitas formas de vida revelam sentidos que o homem nem sequer pode compreender. Os insetos possuem-nos em maior quantidade que os vertebrados. Os próprios pombos revelam o sentido da orientação que não conseguimos explicar. Ora, se nessas formas de vida surgiram esses novos instintos, porque não surgirão igualmente nos homens? Havemos que contar com isso, porque a evolução é um fato e sua marcha é indefinida.

Hoje, em muitas criaturas, já começa a denunciar-se um novo sentido, o sexto, a que poderemos denominar sentido psíquico, qual seja o de pôr-nos em relação com o que Du Prel chama o mundo transcendental. Esse sentido terá que se generalizar e tornar-se tão normal como já o são os cincos de que hoje todos nós nos beneficiamos. Só então os atuais fenômenos metapsíquicos serão estudados e levados em conta como o são hoje os fenômenos físicos que caem sob a percepção dos nossos cinco sentidos.


Livro: O Outro Lado da Vida – Barão Carl Du Prel

Nasceu em Landshut, Baviera (Alemanha), em 3 de abril de 1839. O Barão Carl Du Prel foi destacado filósofo e um dos maiores pensadores modernos e também um dos mais sutis pesquisadores das coisas do Espírito.

Oficial do Exército e doutor em filosofia pela Universidade de Tubingen, participou, juntamente com Lombroso, Schiaparelli, Chiaia, Brofferio, Ermacora, Richet e Aksakof, das famosas experimentações mediúnicas, realizadas em Milão, no ano de 1892.

Carl Du Prel desencarnou em Heiligkreuz (Tirol), no ano de 1899.

As obras deste autor deixaram de ser publicadas desde 1930, o livro “O Outro Lado da Vida” está disponível para download no site: http://autoresespiritasclassicos.com/

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