
Paixão de Cristo
O povo que estava ao pé da cruz não compreendera esta fatalidade de paixão, esta inviolabilidade de princípios e como Quem a quisera, não poderia renegá-la. "Salvou os outros e não se pode salvar a Si mesmo!" - diziam. "Se é o rei de Israel que desça agora da cruz, e nós acreditaremos n'Ele!" O povo, que era o mundo, imaginava ser Cristo um homem que deveria pensar em si mesmo.. Se o supunham um Deus, era no sentido de deus humano, cujo principal fim e uso do próprio poder seriam em sentido egoístico. No vértice de sua paixão, Cristo não existia para si. Da Cruz, olhava o mundo dividido por um abismo de incompreensão. O mundo imagina um Deus e uma lei à sua semelhança, não ainda perfeitos, que admitem modificação, retoques, arbítrio; confunde liberdade com licença, poder com abuso — e não imagina que tudo isto desaparece quando se sobe. O mundo acredita que, como aqui em baixo, possam existir no Alto consciências isoladas e egoístas; que se substituam, segundo os caprichos, as ordens absolutas da Lei. E invoca o milagre como prova de poder, enquanto que o poder maior está na ordem.
A paixão de Cristo não é um fato fora da Lei, pois constitui para Ele a última fase, conclusiva de um normal e longo processo de maturação evolutiva. Assim tudo fica dentro da ordem, e da logicidade da Lei. Deste modo aquela paixão não poderia confundir-se com uma improvisação sem antecedentes preparatórios, mas seria, de preferência, comparável ao último anel de uma cadeia, o momento decisivo do definitivo passo para a frente, o mesmo que lança o ser para fora do Anti-Sistema, para fazê-lo reentrar no Sistema, como coroamento de um precedente e imenso trabalho de maturação que alcançou o seu cumprimento. Assim tudo é conforme a Lei e se compreende. Desse modo Cristo é nosso irmão e mestre e como tal tem o direito de elevar-se como exemplo, porque fez aquilo que cada um de nós deverá fazer, obedecendo como Ele a Lei de Deus. (. . . .) Ele enfrentou o inimigo e fez primeiro aquilo que todos deverão fazer e farão para cumprirem e resolverem o ciclo involutivo-evolutivo. Ele tem o direito de se colocar como exemplo e cabe-lhe a função de modelo, porque a sua paixão não se reduz a de poucas horas que nós nos limitamos a comemorar, mas se projeta nos milênios que cada um de nós deve viver. Ela se condensa num cálice bem mais amargo, o qual consiste em ter de sofrer todas as provas, fadigas e dores do AS, absorvidas hora por hora, até assimilar toda a lição.
Pietro Ubaldi
Livro: Cristo
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